8. ARTES E ESPETCULOS 31.7.13

1. MSICA  O MESTRE E SEUS MAESTROS
2. TELEVISO  A ROUPA FAZ A RAINHA
3. MEMRIA  O TALENTO PREVALECEU
4. CINEMA  A RADICALIDADE DA INTELIGNCIA
5. LIVROS  PRESENTE DE GREGO
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O GRANDE AUSENTE

1. MSICA  O MESTRE E SEUS MAESTROS
As nove sinfonias de Beethoven passaram por inmeras revises e recriaes na mo de regentes e musiclogos  e nunca ter fim a discusso sobre que verso  a definitiva.

As sinfonias de Beethoven so iguais  Bblia: o texto  o mesmo, mas cada um o interpreta de maneira diferente. A frase, dita em tom brincalho pelo maestro estoniano Paavo Jrvi, ilustra um dilema que h dcadas se arrasta pelo mundo erudito  afinal, qual a maneira ideal de tocar essas obras? H uma corrente que defende verses grandiosas, com naipes dobrados  principalmente as madeiras, as trompas e os trompetes  e exuberncia nas cordas, o que exige uso elevado do vibrato. Outros preferem uma leitura ortodoxa, com instrumentos de poca, um grupo sinfnico reduzido e uma performance mais austera, o que, pelo menos em tese, se aproximaria mais da concepo original dessas peas.  Jrvi, claro, tambm adaptou o compositor alemo para o seu mundo. Sete anos atrs, ele e a Filarmnica de Cmara Alemo de Bremen deram incio ao Projeto Beethoven, um trabalho de estudo das sinfonias  que posteriormente foram gravadas em udio, ele e a Filarmnica de Cmara Alem de Bremen deram incio ao Projeto Beethoven, um trabalho de estudo das sinfonias  que posteriormente foram gravadas em udio e em DVD.  Hoje, elas fazem parte do repertrio das turns da orquestra, que nesta semana chega a So Paulo para quatro rcitas dedicadas ao gnio de Bonn.  Embora comande um grupo reduzido de msicos, Jrvi no se rendeu ao tradicionalismo. Suas leituras encontram um meio-termo entre o grandioso e o ortodoxo.  O maestro se permite at pequenas ousadias, como dar um ar militar  marcha fnebre da Terceira Sinfonia ou tocar a introduo da Quinta Sinfonia num ritmo mais acelerado.
	Ludwig van Beethoven (1770-1827) no criou o gnero sinfnico, mas suas nove sinfonias podem ser tidas como seu pice.  A partir do modelo desenvolvido por Haydn e adotado por Mozart, ele ampliou o plano tonal, o desenvolvimento e o carter de cada tema. O compositor alemo deu tons dramticos s suas obras. Um movimento tocado com mais altura e velocidade poderia ser utilizado para narrar um feito heroico ou de vilania. Por outro lado, um andamento vagaroso indicaria um momento emotivo. Beethoven ainda alterou a dinmica das sinfonias. Um dos recursos utilizados  farta pelo autor alemo consistia em aumentar muito o volume da sinfonia para logo em seguida mudar para uma passagem suave.  Ou ento utilizar uma quebra de expectativa, como na Terceira Sinfonia, tambm chamada de Eroica, quando os instrumentos pulam da leveza da introduo para tons mais sombrios. Sua Nona Sinfonia, completada em 1834, abriu os caminhos para o chamado movimento romntico. Os grupos sinfnicos aumentaram consideravelmente de tamanho, as obras ganharam mais durao e expressividade.
     Na segunda metade do sculo XIX, as orquestras atravessaram um processo de engorda. O aumento dos naipes de cordas, madeiras, metais e percusso mudou a maneira de executar as obras de compositores do passado. Beethoven passou at por uma reviso artstica. Durante o perodo em que foi diretor do Teatro da Corte de Dresden, Richard Wagner regeu verses ligeiramente modificadas das sinfonias de seu compatriota, acelerando o andamento de algumas passagens. Em sua defesa, o autor de Tristo e Isolda poderia muito bem alegar um parentesco espiritual. Embora escrevesse mais peras do que sinfonias, Wagner considerava-se herdeiro direto de Beethoven. Seus andamentos heterodoxos serviram de inspirao para maestros que vieram depois, como Wilhelm Funwngler, o homem que, no sculo XX, moldou a sonoridade da Filarmnica de Berlim. Alm disso, durante a execuo da Nona Sinfonia, Wagner utilizou uma formao que seria adotada como padro pelas orquestras em todo o mundo. Colocou os solistas e o coro atrs da orquestra  at ento, eles eram posicionados entre a orquestra e a plateia. Gustav Mahler, no sculo XX, foi ainda mais radical e alterou a instrumentao da Nona Sinfonia. Alegou que Beethoven faria o mesmo se tivesse  disposio um grupo sinfnico moderno (a ttulo de curiosidade, existe uma gravao do sacrilgio mahleriano conduzida por Kristjan Jrvi, o irmo mais novo de Paavo). 
     Na segunda metade do sculo XX, o austraco Herbert von Karajan firmou-se como o intrprete supremo de Beethoven. Poderia perder para alguma execuo especfica  a Quinta Sinfonia do alemo Carlos Kleiber,  frente da Filarmnica de Viena,  superior  verso de Karajan , mas, no conjunto, era tido como o mestre. Hoje, constatam-se fissuras na unanimidade. Entre os maestros consultados por VEJA, existe um consenso de que a integral das sinfonias gravadas em 1963 por Karajan e pela Filarmnica de Berlim  de fato difcil de superar. Mas Karajan gravou o ciclo nada menos que quatro vezes, nem sempre com a mesma felicidade. "A gravao de 1963  histrica. As outras, nem tanto. Muitas so marcadas pela autoindulgncia e pelo sentimentalismo", analisa Paavo Jrvi. O crtico ingls Norman Lebrecht, notrio inimigo de Karajan, no respeita nem as verses de 1963: "So em geral muito bem executadas, mas a Sexta Sinfonia  quase incompreensvel". Tambm se critica em Karajan a frequncia com que, nas gravaes mais tardias, ele recorria a truques de estdio. No se pode, porm, negar a grandeza do regente austraco. "Ao analisarmos friamente as interpretaes dele, principalmente a segunda verso do ciclo, posso at concordar que h certos exageros interpretativos, que mesmo naquela poca eram dbios. Mas no h como discutir a grande musicalidade e a busca por beleza sonora a que ele impelia a Filarmnica de Berlim", atesta Fbio Mechetti, diretor artstico da Filarmnica de Minas Gerais. 
     No h modo objetivo de dizer qual execuo de uma pea musical seria a mais "correta", ou a mais prxima das elusivas intenes do compositor. Por mais detalhada que seja uma partitura, ela sempre deixa larga margem para a interpretao do maestro (veja o quadro ao lado). E a pesquisa musical tambm promove suas mudanas. Morto em 1989, Karajan no pde presenciar revises importantes da obra de Beethoven. A mais significativa foi apresentada em 1996 pelo musiclogo ingls Jonathan del Mar, que descobriu erros de reviso nas partituras de Beethoven. As correes de Del Mar foram seguidas pelo italiano Cludio Abbado e pelo ingls Simon Rattle, que sucederam a Karajan na direo artstica da Filarmnica de Berlim. Outros maestros preferem fazer sua reviso pessoal. Roberto Minczuk, regente titular da Orquestra Sinfnica Brasileira, conta que o americano Lorin Maazel trouxe suas prprias partituras das sinfonias de Beethoven quando veio ao Rio de Janeiro, em 2011, para comandar a orquestra nas nove peas. "Na Nona, ele chega a alterar o volume das cordas para que as madeiras sobressaiam", lembra. 
     Uma das preocupaes de Paavo Jrvi foi livrar Beethoven de qualquer trao wagneriano. Segundo o maestro, a mo de Wagner ainda pesa no modo como se interpretam certas passagens. Seria o caso do clebre "tam tam tam taammm" que abre a Quinta Sinfonia  e que boa parte dos maestros gosta de prolongar. "Trata-se de uma dramatizao excessiva", critica Jrvi. "No quero dizer que estou certo e todos os outros regentes esto errados, mas voc no escuta isso em Fidelio ou na Missa Solene." A nica certeza de Jrvi  o poder elevado das sinfonias de Beethoven: "Quando rejo obras como O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, volto para casa sentindo-me bem. Mas, ao terminar de conduzir uma sinfonia de Beethoven, sou uma pessoa melhor". O pblico que ouvir as releituras corajosas do maestro estoniano experimentar a mesma sensao. 

LIBERDADE POTICA
Nem tudo vai na partitura: nas sinfonias de Beethoven, h muitas oportunidades para que cada maestro estabelea a sua interpretao

Terceira Sinfonia (Eroica)
O segundo movimento abre com uma marcha fnebre. Beethoven no dedicou o tema a ningum em especfico, e dentro das determinaes da partitura h possibilidade de nfases distintas. O maestro estoniano Paavo Jrvi imaginou que se trataria de um funeral militar: deu ao movimento um andamento marcial, com presena mais forte dos tmpanos 

Quinta Sinfonia
Na quarta e na oitava notas que abrem a sinfonia - o famoso "tam tam tam taammm"-, consta da partitura de Beethoven uma fermata, smbolo que alonga a durao da nota - mas de forma imprecisa, intuitiva, o que abre espao para a verso de cada intrprete. Alguns regentes, como Karajan, tendem a tornar o trecho mais lento, conferindo-lhe um ar majestoso. Outros, a exemplo de Riccardo Muti e Paavo Jrvi, o fazem mais rpido, dando-lhe mais leveza e agilidade. 

Nona Sinfonia
No ltimo movimento, h um longo trecho no qual violoncelos e contrabaixos tocam praticamente sozinhos. Na partitura, Beethoven determina: "Segundo as caractersticas de um recitativo, mas no tempo".
 uma maneira de pedir que os instrumentos toquem como se estivessem cantando. Karajan tornou sua leitura antolgica ao imprimir um ritmo mais "vocalizado" e emotivo  passagem, antecipando o momento em que o coral vai cantar a famosa Ode  Alegria, com versos de Friedrich Schiller.

Fonte Leonardo Martinelli, compositor.


2. TELEVISO  A ROUPA FAZ A RAINHA
Os figurinos de Gogoia Sampaio andam na linha fina entre o brega verdico e o exagero saudvel, traduzem personagens e so capazes at de, sozinhos, segurar a audincia de uma novela.
MARCELO MARTHE

     Numa conversa  toa, a carioca Gogoia Sampaio certa vez mencionou sua funo na Rede Globo  ela  figurinista. " mesmo? Mas eu nunca vi voc nas novelas", retrucou o interlocutor  confundindo a funo, claro, com a de figurante. A anedota  abilolada, mas oferece um contraponto para ilustrar a importncia da funo que Gogoia desempenha na emissora l se vo vinte anos. Embora aparea em carne e osso no ar, o figurante  uma presena andina na trama. J o figurinista, apesar de no estar em cena de corpo presente, tem uma visibilidade tremenda, como responsvel no s pela escolha das roupas, mas  como  o caso de Gogoia  pela concepo completa do visual dos personagens. Tome-se sua empreitada atual, a novela Saramandaia, exibida na faixa das 11. O remake do folhetim criado por Dias Gomes em 1976 iniciou-se com cheiro de obra datada: sua alegoria poltica calcada no realismo fantstico parecia fadada a no encontrar ressonncia no Brasil de hoje. Seu autor, Ricardo Linhares, foi bafejado pela sorte quando os protestos que tomaram o pas injetaram atualidade no mpeto mudancista (para usar um vocbulo tpico de Dias Gomes) dos jovens da cidade fictcia de Bole-Bole. Mas a verdade  que, at a coisa engatar, o que garantiu  novela manter-se num patamar razovel de audincia foi a exuberncia sada dos croquis de Gogoia. Seu trofu mais chamativo  a Dona Redonda. A obesa que explodir de tanto comer deixou de usar os camisoles bvios e algo vulgares ostentados por Wilza Carla (1935-2011). Na nova verso, s se vem mesmo os olhos, o nariz e a boca da atriz Vera Holtz; o resto  uma estrutura engenhosa sustentada por um macaco de elastano e preenchida com nacos de poliuretano, conjunto fabricado com o auxlio de um profissional de Hollywood, o britnico Mark Coulier. Com seus cabelos vermelhos e bolsinhas em formato de cupcake, Dona Redonda ficou a meio caminho entre uma personagem felliniana e a Dona Baratinha das histrias infantis. "Gogoia tem o dom de passar a verdade de cada personagem", diz Ricardo Linhares. 
     No time de 34 figurinistas da Globo, a profissional de 45 anos desponta  frente da gerao que cresceu e se formou vendo novelas. Nos primrdios da emissora, quando as tramas de capa e espada da cubana Glria Magadan eram pretexto para desfiles de fantasia e balangands, carnavalescos como Arlindo Rodrigues se encarregavam da tarefa de vestir os atores. E como havia improviso: na falta de roupas adequadas s situaes de seus personagens, as estrelas do elenco tinham de se socorrer em seu guarda-roupa pessoal  ou eram focalizadas em close para no denunciar a falha. Houve uma revoluo no setor em 1973, com a chegada de Marlia Carneiro, ex-dona de butique da Zona Sul que sacramentou o casamento entre os figurinos das novelas e a moda. Lanadora de sucessos como as meias de lurex usadas por Snia Braga em Dancin' Days. exibida entre 1978 e 1979, Marlia elevou o cacife de sua categoria: mais que qualquer estilista de nariz empinado, so os figurinistas da Globo que ditam as tendncias no pas. Gogoia  cria dela. Filha do jornalista e poltico Pedro Porfrio e da produtora de cinema Adlia Sampaio, ela cresceu em sets de filmagem (e nesse meio, ainda criana, sua dificuldade em pronunciar o nome de batismo  Gergia  fez pegar o apelido de Gogoia). 
     Um dia, tendo apenas alguma experincia como produtora e nenhuma com moda, ela foi indicada para a equipe de Marlia Carneiro. "Eu tinha loucura por aquela mulher", conta. Mas foi brao-direito dela s at a primeira oportunidade de dar o pulo do gato: em 1996, quando o diretor Wolf Maya brigou com a equipe de produo de Salsa e Merengue, sua mentora no pde acumular mais essa responsabilidade, e Gogoia se ofereceu para o posto. "Ela sempre foi assim: quando diz que vai, vai mesmo. E no  que a danadinha nunca mais foi assistente?", diz Marlia. Ela diagnostica outra qualidade na ex-pupila: "Gogoia no tem medo de atores e diretores que fazem cara feia". Ela no apenas driblou esses percalos, como tambm encontrou um porto seguro na figura da diretora Denise Saraceni, com quem mantm uma parceria carinhosa h doze anos. 
     Gogoia fez a lio de casa que se espera dos figurinistas de novelas. Em diversas ocasies, apostou em itens que se tornariam obsesso das espectadoras, dos modelitos ripongas da personagem da cantora Sandy numa trama das 6 de 2001, Estrela-Guia, s roupas e acessrios das empreguetes de Cheias de Charme, sucesso das 7 em 2012. Tudo o que eu colocava nelas virava fixao. Aprendi que a moda pode at criar tendncias  eu crio comportamentos", diz. O ofcio requer um tanto de faro antropolgico. Ela sente que uma roupa vai dar certo quando sua empregada gosta. "Com ela, aprendi que a mulher da periferia faz questo de usar salto e cala justa mesmo para andar de nibus. E no abre mo do megahair, que  smbolo de ascenso social." 
     Ser figurinista de novela passa tambm pela elucubrao esttica. Sua gerao exibe talentos como Marie Salles, que caracterizou os tipos do subrbio carioca com preciso absoluta em Avenida Brasil, e Labibe Simo, sempre elogiada pela capacidade de delimitar as personalidades de tipos contemporneos (ela est no ar com Amor  Vida). No caso de Gogoia, a especialidade  criar figurinos que andam numa linha fina entre o exagero saudvel e o puro brega (no  toa, ela j fez figurinos para o humorstico Zorra Total). ''Ela vai alm do kitsch da casa", diz Marlia Carneiro (a casa a, frise-se,  a Globo). A ex-tutora se arrepia ao falar de caracterizaes de personagens como Cl, a perua sem noo interpretada por Irene Ravache em Passione, exibida entre 2010 e 2011. "No vamos falar do passado. Gogoia ainda no estava pronta", afirma. Celeumas  parte, a figurinista imps-se de vez como referncia do excesso bem equilibrado graas  inacreditvel Chayene, cantora de tecnobrega vivida por Cludia Abreu em Cheias de Charme. Saramandaia confirma essa reputao. O figurino da novela j fez o arroz com feijo: os culos escuros do professor e lobisomem Aristbulo (Gabriel Braga Nunes, no papel que foi de Ary Fontoura) e os vestidos da fogosa e incendiria Marcina (Chandelly Braz, em lugar de Snia Braga) j esto entre os itens mais pedidos pelos espectadores da Globo. Gogoia faz um trabalho impecvel, ainda, na caracterizao de tipos como Tibrio Vilar (Tarcsio Meira), patriarca que criou razes no solo de sua propriedade. "Ele veste um nico terno marrom  mas no um marrom qualquer: eu busquei a cor da terra das plantaes de cana do Nordeste", diz ela. 
     A profisso de figurinista exige, por fim, aquela habilidade para se mover entre os egos da TV. A primeira coisa que os atores perguntam a Gogoia  o que ser feito de seus cabelos. "Acabo sendo  uma psicloga", diz. O efeito colateral disso, alis, foi formar uma legio de amigos (pacientes?) famosos. Em maro passado, a festa de lanamento de seu portal de moda, o BR Confidencial, foi prestigiada por meia Rede Globo  e algumas estrelas at pem a mo na massa, fazendo aparies em sees do site. Aracy Balabanian  madrinha de sua filha, Antonia, de 10 anos. Deve ser preciso muito ombro amigo e lbia de terapeuta para aliviar o suplcio de colegas (cobaias?) como Vera Holtz. VEJA testemunhou o sofrimento da intrprete de Dona Redonda durante uma gravao ao ar livre na cidade cenogrfica da novela, na central de estdios da Globo, o Projac, no Rio de Janeiro. "No d para falar agora. S me deixem trabalhar, pelo amor de Deus", choramingava a atriz, enquanto um aparelho bombeava gua refrigerada por baixo do corpanzil sinttico de mulher de 250 quilos. Nem esse refresco inslito minimizava seu fardo debaixo do solzo do inverno carioca. O figurino, como se v, tem seu peso.


3. MEMRIA  O TALENTO PREVALECEU
O sanfoneiro Dominguinhos continuou a tradio iniciada por seu dolo e mentor Luiz Gonzaga  e, como ele, sobreviveu a todos os modismos.

     No incio dos anos 1990, um reprter perguntou ao sanfoneiro Dominguinhos se ele no se sentia prejudicado pela popularidade da ax music, que ento ameaava a supremacia do forr nas festas populares do Nordeste. O msico respondeu com a pacincia e a sinceridade que sempre marcaram sua carreira: "Meu filho, tambm disseram que o rock e a lambada iriam tirar o pblico de mim. Mas eles passam, e eu fico". De fato, Dominguinhos, morto na tera-feira passada, aos 72 anos de idade, em decorrncia de complicaes de um cncer no pulmo, prevaleceu. O sanfoneiro no era apenas sucessor direto de Luiz Gonzaga, seu padrinho artstico e pioneiro na divulgao da msica nordestina. Embora o forr e o baio predominassem em seu trabalho, ele tambm fez parcerias com os tropicalistas (foi o sanfoneiro do show ndia, de Gal Costa, em 1972) e, em 2007, lanou um lbum em dueto com o virtuose do violo Yamandu Costa. 
     Jos Domingos de Morais nasceu em Garanhuns, Pernambuco, em 1941. Filho de um conhecido sanfoneiro da cidade, na infncia ele montou, com dois irmos, o grupo Os Trs Pinguins. Dominguinhos tinha 9 anos quando conheceu Luiz Gonzaga  postou-se na porta do hotel em que seu dolo estava hospedado. O mestre se impressionou tanto com a destreza do jovem instrumentista que o convidou para ir para o Rio de Janeiro. Mas foi s depois de quatro anos que Dominguinhos finalmente partiu para a ento capital federal e passou a acompanhar Gonzaga nas apresentaes que o chamado "rei do baio" fazia pelo pas. Em 1967, Dominguinhos conheceu a cantora pernambucana Anastcia, que se tornaria sua mulher e parceira. A dupla comps mais de 200 msicas, entre elas Tenho Sede e S Quero um Xod. A participao no show de Gal aproximou Dominguinhos da MPB. O sanfoneiro teve como parceiros Gilberto Gil (Lamento Sertanejo, Abri a Porta) e Chico Buarque (Tantas Palavras). A dcada de 80 lhe proporcionou sucessos como De Volta para o Aconchego (parceria com Nando Cordel, interpretada por Elba Ramalho) e Isso Aqui T Bom Demais (cantada em dueto com Chico Buarque). 
     Fazia seis anos que Dominguinhos lutava contra o cncer. No fim do ano passado, foi internado em estado grave no Recite e, em janeiro deste ano, transferido para o Hospital Srio-Libans, em So Paulo, onde morreu. O estado frgil em que o msico se encontrava no impediu que Mauro, filho de seu primeiro casamento, com Janete, e Liv, filha da sua unio com a cantora Guadalupe, j tratassem de iniciar na Justia a briga pela diviso dos seus bens. 
SRGIO MARTINS


4. CINEMA  A RADICALIDADE DA INTELIGNCIA
Um belo filme alemo retrata a independncia e a intransigncia de Hannah Arendt, a filsofa judia que enfureceu meio mundo ao falar da "banalidade do mal" prpria do nazismo.
JERNIMO TEIXEIRA

     A filsofa Hannah Arendt (interpretada com vigor por Barbara Sukowa) conversa, num caf de Jerusalm, com um antigo mentor, o sionista alemo Kurt Blumenfeld (Michael Degen). Discutem, como todo mundo na cidade em 1961, o caso de Adolf Eichmann, o oficial nazista que, sequestrado na Argentina no ano anterior pelo servio secreto israelense, est sendo julgado em Israel por seu papel fundamental na Soluo Final, o extermnio sistemtico de judeus na II Guerra Mundial. O ocupante de uma mesa prxima, ao ouvi-los falar em alemo, pede licena para entrar na conversa. Logo os trs, como tpicos alemes cultos, esto animadamente lembrando versos de Fausto. Blumenfeld ento tenta um chiste, atribuindo a Eichmann uma fala de Mefisto. Hannah Arendt no aceita a brincadeira do amigo. "Eichmann no  nenhum Mefisto", pontifica, severa. Nos limites de um filme, a recusa em identificar o criminoso nazista com o demnio da obra de Goethe  uma sntese acurada da controversa interpretao que a filsofa faria da figura de Eichmann: um burocrata medocre, que desempenhou com diligncia a tarefa de conduzir multides  morte em campos como Auschwitz no por fervor ideolgico ou por dio racista, mas porque assim exigiam as circunstncias de seu cargo. Embora no assinasse ordens de execuo, foi Eichmann quem garantiu a logstica do Holocausto, chefiando as deportaes e organizando o transporte ferrovirio at os campos de concentrao. Ele encarnaria exemplarmente aquilo que Hannah Arendt designou como a "banalidade do mal", expresso que desde ento banalizou-se ela mesma, mas que na dcada de 60, quando a filsofa publicou Eichmann em Jerusalm, soava como uma ousadia e at como um ultraje. Dirigido por Margarethe von Trotta, Hannah Arendt (Alemanha/Frana/Luxemburgo, 2012), em cartaz em poucas mas felizes capitais brasileiras, reconstitui os anos decisivos em que a personagem-ttulo enfrenta a feroz oposio que sua obra suscitou. Trata-se de um raro filme adulto (e talvez por isso to mal distribudo), em que ideias abstratas tm precedncia sobre a beleza fsica dos atores. 
     Margarethe von Trotta apresenta as fragilidades e ambivalncias de sua personagem  sobretudo a mais bvia: mostra em uma srie insistente de flashbacks a ligao amorosa e intelectual que Hannah teve com seu mestre Martin Heidegger, figura capital da filosofia do sculo XX que vergonhosamente aderiu ao nazismo. O filme, no entanto,  sempre simptico  intransigente independncia da herona que se v publicamente execrada por suas ideias. Foi, de fato, infamante a campanha que se fez contra Hannah Arendt depois da publicao, em 1963, de Eichmann em Jerusalm  primeiro como uma srie de textos na revista The New Yorker, que patrocinou a viagem da autora a Israel, e em seguida na forma de livro. Intelectual judia que se exilara nos Estados Unidos em 1941, a autora de As Origens do Totalitarismo subitamente se viu acusada at de antissemitismo. A se acreditar na verso caricatural que muitos fazem da reportagem sobre Eichmann, a filsofa inocenta os carrascos e culpa as vtimas. A primeira acusao  cabalmente mentirosa: o fato de Eichmann ser um burocrata banal no o inocenta. Ao contrrio do que sugerem resenhas americanas do filme  no jornal The New York Times e na revista The New Republic , Hannah Arendt nunca foi tola de afirmar que Eichmann "no sabia" o que estava fazendo. No eplogo de seu livro, ela deixou claro que o oficial alemo participou ativamente de uma "poltica de assassinato em massa". E ela aprovou sua condenao  morte pela forca.
     O segundo ponto  a suposta responsabilizao das vtimas   mais delicado. A reportagem de Hannah enfatizou a cooperao de organizaes civis dos judeus, os chamados Conselhos Judaicos, com os nazistas. Sua fonte principal sobre o tema foi A Destruio dos Judeus na Europa, do historiador austraco Raul Hilberg (mas Hilberg, segundo conta a bigrafa Laure Adler em Nos Passos de Hannah Arendt, nunca gostou de se ver associado s teses de Eichmann em Jerusalm). A filsofa recusou-se ao simplismo  nos dias de hoje, alis, convertido em dogma do credo progressista  de que as vitimas, apenas por serem vtimas, gozam de algum estatuto moral superior. No entanto, muitos crticos ressalvaram, com razo, que Hannah passou julgamento sobre os lderes judaicos sem pesar as circunstncias em que eles agiram. No filme, vrios personagens acusam-na de ser cruel e fria. Ecoam a crtica que o intelectual alemo-israelense Gershom Sholem fez, em carta pblica,  reprter-filsofa: "O que censuro em seu livro  a insensibilidade, o tom frequentemente quase sarcstico e malevolente com que trata esses temas que tocam nossa vida no ponto mais sensvel". 
     Por economia, Hannah Arendt no aborda episdios interessantes do perodo. H dilogos afiadssimos entre a filsofa e sua melhor amiga americana, a romancista Mary McCarthy (Janet McTeer). Mas no se mostra a noite de conversa inflamada que Hannah teve, em Jerusalm, com Golda Meir, futura primeira-ministra de Israel. Tampouco entrou no roteiro o acidente de carro do qual a filsofa saiu gravemente ferida em Nova York, resultando em atraso na redao da reportagem sobre Eichmann. Scholem no figura como personagem, mas parece ter se fundido em outra figura histrica, o j citado Kurt Blumenfeld. Em uma cena inventada de grande apelo emocional, Hannah vai s pressas a Jerusalm ao saber que Blumenfeld est muito doente. Em seu leito de morte, o velho sionista acusa a amiga mais  jovem de no ter amor ao povo judeu. Hannah responde com frases que, na verdade, figuraram em sua resposta a Scholem: "Nunca em minha vida amei nenhum povo, nenhuma coletividade. Amo unicamente meus amigos".  tambm em carta a Scholem que Hannah Arendt faz uma rara reviso de suas ideias. Ela havia caracterizado como "radical" o mal praticado por Eichmann e assemelhados, mas, no sentido estrito do adjetivo ("relativo a raiz"), equivocara-se: o mal espalha-se pelo mundo como um cogumelo, sem razes. Por isso  um desafio para o filsofo: "O pensamento tenta atingir a profundidade, tocar nas razes, e, no momento em que se ocupa do mal. se frustra porque no encontra nada.  a que est sua 'banalidade'. S o bem tem profundidade e pode ser radical".


5. LIVROS  PRESENTE DE GREGO
Quarenta anos depois de seu lanamento, O Legado de Humboldt, uma obra-prima de Saul Bellow, ainda provoca e surpreende com seu drama e humor intactos.

     Logo no incio de O Legado de Humboldt (traduo de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 536 pginas; 68 reais) h um almoo poltico no restaurante nova-iorquino Tavern on the Green  cintilante reduto mundano nos anos 1960  descrito como uma ocasio "em que todas as celebridades ficaram em xtase ao verem umas s outras". Entre as celebridades deslumbradas est o prprio narrador da histria, Charlie Citrine, um historiador e dramaturgo que acaba de emplacar um grande sucesso na Broadway e, uma hora antes, estava sobrevoando Manhattan a bordo de um helicptero, em companhia do ento senador Robert Kennedy. Essa rpida passagem serve como perfeita introduo  verve de Saul Bellow (1915-2005), ainda to eficiente e certeira como quando o livro foi publicado, em 1975  verve, alis, que contribuiu para a consagrao definitiva do escritor canadense, que viraria Nobel de Literatura no ano seguinte. 
     Apesar dos inmeros elogios recebidos, O Legado de Humboldt no foi unanimidade no momento de seu lanamento (o que s depe a seu favor). Anatole Broyard, crtico literrio do The New York Times, considerou o narrador Citrine uma "criao maante", a segunda metade da trama, aborrecida, e o final, um anticlmax. Enquanto outras vozes acusavam Bellow de visar apenas ao lucro e ao sucesso fceis  exatamente como o protagonista que o autor tanto satiriza no livro. Revisitado hoje Humboldt se revela surpreendentemente atual ao revolver temas como a obsesso pela celebridade, a busca constante pela forma fsica, as relaes de dependncia e traio entre os sexos, o consumismo desenfreado e a pergunta que nunca se cala: pode realmente a arte salvar o homem? 
     Von Humboldt Fleisher  o poeta incensado pela crtica e amado pelo pblico que leva o jovem Charlie Citrine, ingnuo vendedor a domiclio, a enfrentar uma viagem de nibus de cinquenta horas  do Meio-Oeste a Nova York  apenas para conhec-lo e, quem sabe, respirar os rarefeitos ares do meio literrio americano. At que o jogo se inverte e Citrine, agora um autor festejado, recebe a notcia da morte de Humboldt  esquecido, pobre e bbado  em um quarto de hotel barato. Ele passa ento a revisar a relao dos dois, de mestre e pupilo a rivais, ao mesmo tempo em que se envolve numa disputa com um gngster de Chicago e descobre que o velho poeta lhe reservou algo em seu testamento  o legado do ttulo, que calha de ser um presente de grego. 
     Baseado na amizade/rivalidade de Bellow com o poeta e contista Delmore Schwartz (1913-1966), O Legado de Humboldt  integralmente fiel s duas referncias que o autor declarava serem uma constante em sua obra: o atormentado questionamento existencial do russo Fiodor Dostoievski e a gaiatice descarada dos irmos Marx. Concili-las  o seu golpe de gnio. 
MRIO MENDES


6. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY 
JESUS CRISTO SUPERSTAR: LIVE ARENA TOUR (INGLATERRA, 2012. UNIVERSAL PICTURES)
 O compositor Andrew Lloyd Webber e o letrista Tim Rice criaram Jesus Cristo Superstar no para os palcos, mas para os estdios: na viso da dupla, o combinado de rock, funk e letras em que Judas contestava Jesus Cristo seria mais apreciado por um pblico cabeludo do que pelo espectador tradicional do teatro. O musical, porm, foi bem-sucedido a ponto de ser levado ao cinema  numa verso esplndida de Norman Jewison. Live Arena Tour realiza o desejo inicial de Webber e Rice. O espetculo, que percorreu diversas cidades inglesas no ano passado, traz uma encenao moderna, que faz referncias ao movimento Occupy Wall Street e aos tumultos ocorridos em Londres em 2011. As melodias e as letras esto entre as melhores produzidas pela dupla. O trio principal (Ben Forster no papel de Jesus; Tim Minchin como Judas; e a ex-spice girl Mel C como Maria Madalena)  o fraco da produo. No lhes falta competncia, mas sim o canto rasgado e a entrega que os personagens exigem. J Alexander Hanson como Pilatos e o Herodes apresentador de talk-show do DJ Chris Moyles compensam qualquer falha do elenco.

DVD
COLEO CLINT EASTWOOD (WARNER)
 Este novo pacote dedicado ao ator e diretor se segue a uma caixa com sete filmes em Blu-ray lanada h pouco  mas  ainda mais atraente. Entre os ttulos h, por exemplo, Bird, sua ode de 1988 ao saxofonista Charlie Parker, que at aqui quase s era possvel encontrar na verso importada. Ou o menos raro, mas fundamental, Josey Wales  O Fora da Lei, um dos seus maiores faroestes da dcada de 70 (o que no  pouco), sobre um integrante de uma milcia sulista que, ao fim da Guerra Civil, se recusa a render-se. Ou ainda o subestimado Honkytonk Man, de 1982, no qual Eastwood faz um sujeito que, junto do sobrinho (vivido por seu filho Kyle, ento com 13 anos), vaga pelas estradas poeirentas do Sul durante a Depresso tentando subsistir e sonhando com uma grande chance. Um Agente na Corda Bamba, de 1984, de fato  um ttulo menor  mas o mesmo no se pode dizer de Corao de Caador, de 1990, no qual o ator-diretor homenageia um nome que  a quintessncia do cinema americano, John Huston, reconstituindo sua sanha por matar um elefante antes de iniciar as filmagens do clssico Uma Aventura na frica.

DISCO
TAP: JOHN ZORN'S BOOK OF ANGELS VOL. 20, PAT METHENY (WARNER)
 Em quatro dcadas de carreira, o guitarrista americano Pat Metheny sempre equilibrou trabalhos descaradamente comerciais com obras de cunho vanguardista. Para cada lbum de jazz fusion em que decalcou a guitarra de Toninho Horta e os climas do Clube da Esquina, ele embarcou em projetos pouco comerciais  caso da colaborao com o saxofonista Ornette Coleman no lbum Song X, ou da unio com o Kronos Quartet para executar as obras do minimalista americano Steve Reich. Tap pertence  lavra experimental de Metheny. Traz seis composies do irascvel John Zorn, ponta de lana do jazz de vanguarda.  parte a bateria de Antonio Sanchez, todos os instrumentos so tocados por Metheny (que vai da guitarra, que domina como poucos, ao trompete e ao bandonen). A parceria d liga, como se pode notar em Mastema (em que as pancadas de Sanchez conferem  faixa um sabor de jazz rock) ou na delicada Albim, que revela influncias de msica brasileira e do estilo cigano do guitarrista belga Django Reinhardt. Um belo lbum de um instrumentista que ainda no perdeu o gosto pela ousadia.

LIVROS
VIVA E DEIXE MORRER; GOLDHFINGER; DA RSSIA, COM AMOR, DE IAN FLEMING (TRADUO DE ROBERTO GREY; ALFAGUARA; 232, 288 E 264 PGINAS; 39,90 REAIS CADA TTULO)
 Fluente em russo, francs e alemo (alm,  claro, do ingls nativo), Ian Fleming (1908-1964) preenchia todos os requisitos da Inteligncia da Marinha britnica durante a II Guerra. Recrutado inicialmente para investigar as atividades de submarinos alemes no Caribe, ele usou seu trabalho como fundamento para a criao de catorze livros que venderam mais de 100 milhes de exemplares e cujo protagonista , claro, James Bond. Segundo livro da safra inaugurada com Cassino Royale, publicado em 1954 (e adaptado para o cinema em 1973). Viva e Deixe Morrer logo em suas primeiras pginas apresenta Bond como um observador nato e um sujeito safo e de elegncia incontestvel. Esta  uma das trs novas edies de Fleming que chegam s livrarias brasileiras nesta semana. Ler suas obras pode ser mais viciante que assistir aos filmes de 007 e confirma o que disse certa vez o escritor Raymond Chandler: "Bond  o que todo homem gostaria de ser, e o que toda mulher gostaria de ter em seus lenis".

A ESTRATGIA DE ESTILO, DE NINA GARCIA (TRADUO DE PATRCIA AZEREDO; BESTSELLER; 192 PGINAS; 44,90 REAIS)
 Uma anedota recorrente no mundo da moda  a pergunta "Qual  o novo preto?"  porque preto  neutro, chique e combina com tudo em qualquer ocasio. Para a jornalista colombiana e jurada do reality show Project Runway Nina Garcia, "ter sensibilidade e ser inteligente nas compras  o novo preto". Essa  a ideia por trs de seu terceiro guia de moda e estilo, que procura orientar as consumidoras sobre como fugir do consumo excessivo de roupas e acessrios e comprar apenas o necessrio para se manterem elegantes no trabalho, nas festas e na vida. Soa pretensioso, mas Nina usa a expertise adquirida como editora de revistas de moda para resumir a problemtica em trs perguntas bsicas: "O que eu tenho?", "Do que eu preciso?" e "O que eu quero?". Bem ilustrado, didtico, recheado de dicas e episdios da histria da moda, o livro  agradvel como uma visita a uma butique de grife. Nina ainda oferece s leitoras momentos de sabedoria fashion de personalidades como a escritora francesa Simone de Beauvoir: "Comprar  um prazer profundo". 


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA 
5. A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
6. A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA 
7. Cinquenta Tons de Cinza.  E.L. James. INTRNSECA 
8. O Julgamento de Gabriel. Sylvain Reynard. ARQUEIRO 
9. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
10.   O Lado Bom da Vida.  Matthew Quick. INTRNSECA 

NO FICO
1. Cincia e F. Bispo Rodovalho. LEYA BRASIL
2. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
3. Dirceu  A Biografia.  Otvio Cabral. RECORD 
4. Um Gato de Rua Chamado Bob.  James Bowen. NOVO CONCEITO 
5. Casagrande e Seus Demnios.  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO 
6. Pensadores que Inventaram o Brasil. Fernando Henrique Cardose. COMPANHIA DAS LETRAS 
7. O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD
8. Holocausto Brasileiro. Daniel Arbex. GERAO EDITORIAL 
9. Para Sempre. Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
10. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas. Leonard Mlodinov. ZAHAR

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
3. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
5. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
6. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER
7. Louco por Viver. Roberto Shnyashiki. GENTE 
8. Nietzsche para Estressados. Allan Percy. SEXTANTE
9. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
10. Receitas de Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O GRANDE AUSENTE
     O grande ausente das atuais cogitaes sobre a reforma poltica  o dispositivo constitucional que estabelece o mnimo de oito deputados e o mximo de setenta para cada bancada estadual. A "crise de representatividade"  alardeada sempre como motivo central para a reforma do sistema. No entanto, no se fala nesse grande fator de distoro na representatividade que  o artigo 45 da Constituio, ao estabelecer um mnimo de oito deputados e um mximo de setenta por estado. Para citar o exemplo clssico, So Paulo, que bate no teto constitucional, tem um deputado para cada 600.000 habitantes, enquanto Roraima, o menos populoso dos estados, tem um para cada 58.750. Resulta da uma sub-representao de So Paulo, uma super-representao de Roraima e, computadas todas as outras distores, entre tais extremos, uma Cmara dos Deputados capenga, muito longe de espelhar equitativamente a populao brasileira.  
     Costuma-se culpar o "pacote de abril", funesta reforma baixada pela ditadura, em 1977, pela distoro. O pacote de abril  culpado por muita coisa, inclusive pela grotesca instituio do "senador binico" (no eleito, mas nomeado), mas no por isso. Os limites vm desde a Constituio republicana de 1891 (mnimo de quatro e mximo por um clculo varivel) e vieram se agravando (a Constituio de 1946 previa mnimo de sete e mximo tambm por um clculo varivel) at chegar ao pice na Constituio de 1988, justamente a mais democrtica de nossa histria. Segundo teoria geralmente aceita, interessa aos governantes conferir maior representatividade a regies menos populosas por serem de mais fcil manipulao. A imposio de limites seria portanto um freio de esprito conservador contra as aspiraes dos setores sociais mais avanados. 
     A questo no vem de agora, nem  apenas daqui. No Japo agora mesmo a m distribuio dos distritos pelos quais so eleitos os deputados levou a Suprema Corte a declarar a Cmara em "estado de inconstitucionalidade". Em toda parte do mundo, as relaes entre regies, estados, municpios ou at bairros so embaraosas e difceis de superar. A equidade  ainda mais reclamada, e a distoro fica mais evidente, quando o sistema de eleio dos deputados  o majoritrio em distritos reduzidos  o sistema conhecido no Brasil por "voto distrital". Caso fosse institudo entre ns, sem mexer com os limites constitucionais vigentes, cada distrito de So Paulo teria 600.000 eleitores, contra 58.750 em Roraima  receita certa para uma Cmara estapafrdia, em que a carncia de representatividade ficaria ainda mais exposta do que na atual. 
 difcil estabelecer negociaes entre unidades federativas quando de algumas se pede que abram mo do que supem sejam conquistas. O Tribunal Superior Eleitoral determinou em abril, com base nos resultados do Censo de 2010, uma atualizao das bancadas que implicaria, nas eleies de 2014, o aumento delas em cinco estados e a diminuio em oito. Maior ganhador, o Par ficaria com quatro deputados a mais, mas a maioria ganharia ou perderia apenas um. O presidente da Cmara avisou de pronto que o assunto era delicado e demandava reflexo. Nunca se procedeu  atualizao das bancadas, desde a Constituio de 1988; a tendncia  sempre deixar as coisas como esto. Se  assim com os pequenos ajustes, imagine-se com um maior, como o que revogaria os limites mximo e mnimo. E, se os ajustes so difceis assim no sistema atual, imagine-se no caso de ser implantado o voto distrital. 
     Uma possvel estratgia para quebrar o impasse seria radicalizar o conceito de que deputado  representante do povo. O conceito j est escrito na Constituio; radicaliz-lo significaria precisar que, sendo representante do povo, no  do estado. Nas regies fronteirias, haveria distritos que misturariam populaes de um lado e de outro; e estados de escassa populao, como Roraima, se juntariam a vizinhos para formar um distrito. Voto distrital  feito para eleger representantes de uma comunidade de eleitores, no de um estado. Misturar populaes de estados diferentes para formar distritos viria ao encontro do esprito que o anima. De quebra, com isso se valorizaria o papel do Senado, esta sim a Casa de representao dos estados, hoje to redundante com relao  Cmara. 
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     Para no deixar em branco o assunto da semana: o papa Francisco, na pose e nos gestos,  menos eclesistico do que o vice-presidente Michel Temer.


